Rondônia - 31 de Maio de 2026

O XADREZ DO PODER: A RELEVÂNCIA DO LEGISLATIVO

DANIEL PEREIRA, 02/04/2026 10h19

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Em 2026, os eleitores brasileiros enfrentam um pleito decisivo: de deputados estaduais à Presidência da República. Governantes e opositores jogam suas últimas fichas para ampliar suas bancadas. Afinal, a história recente demonstra que a governabilidade — e a própria sobrevivência política — depende estritamente da matemática parlamentar. Se nas ditaduras a sustentação do poder se dá pela força dos tanques, na democracia ela depende dos votos nos parlamentos. É assim, pelo menos, desde a consolidação da própria ideia de limites ao soberano.

A FORÇA DOS NÚMEROS E AS LIÇÕES DO PASSADO
A maior ou menor influência nas Casas Legislativas dita o sucesso ou o fracasso de um governo. O caso da ex-presidente Dilma Rousseff é emblemático. Sem uma base sólida no Congresso, acabou apeada do poder. Sob a ótica moral, muitos enxergaram injustiça; sob a ótica estritamente política, contudo, o desfecho evidenciou o pragmatismo implacável do Congresso. Vale lembrar que a engrenagem partidária não perdoa: o PT liderou o impeachment de Collor e faria o mesmo com outros adversários se houvesse oportunidade. Na política real, a hipocrisia costuma ceder espaço aos números.
Outro exemplo contemporâneo dessa queda de braço foi o desenho da CPMI do INSS e as intensas disputas com o Palácio do Planalto. Em um primeiro momento, o governo sofre resistências; em outro, consegue reverter o cenário. Tudo gravita em torno de quantos parlamentares estão, de fato, dispostos a apoiar a agenda do Executivo.

A REALIDADE BRASILEIRA
Por aqui, a matemática eleitoral para este ano segue aberta. Do lado bolsonarista, há um esforço evidente para eleger uma bancada robusta, capaz de impor sua agenda aos demais Poderes e emparedar o Supremo Tribunal Federal — personificado na figura do ministro Alexandre de Moraes.
Do lado do governo Lula, paira a dúvida: a contabilidade está sendo feita com o realismo necessário? Movimentos recentes sugerem que a complexa realidade regional ainda não foi totalmente compreendida pelo Planalto. Em Rondônia, por exemplo, de uma bancada de onze parlamentares federais, apenas um costuma alinhar-se ao governo federal. O risco de o placar virar drasticamente para um isolamento total de onze a zero é real.
Há quem se apegue ao otimismo de conquistar cadeiras importantes em grandes colégios eleitorais, como o Senado em São Paulo. Contudo, convém lembrar o revés sofrido naquela região em 2022. Torce-se por um resultado diferente agora em 2026, mas a boa política exige mais estratégia do que torcida.

O EXEMPLO HISTÓRICO DE RONDÔNIA: UNIÃO E VITÓRIA
As terras de Rondon já tiveram mais foco e pragmatismo quanto ao futuro. No ano 2000, antes mesmo de Lula consolidar sua histórica aliança nacional com o empresário José Alencar, a união entre capital e trabalho já se materializava em Ji-Paraná. Naquela ocasião, a dobradinha entre o PDT (de Acir Gurgacz) e o PT conquistou a prefeitura municipal.
Dois anos depois, essa aliança impulsionou o palanque de Lula no estado, garantindo uma contribuição histórica para a esquerda local: a eleição de uma senadora e de dois deputados federais focados em sustentar os projetos do governo que acabara de se eleger.
Em tempos mais recentes, Confúcio Moura tem se mostrado um aliado de primeira hora, seja na prefeitura de Ariquemes, seja no governo do estado, repetindo o padrão de composições amplas que garantiram vitórias expressivas, unindo forças que pareciam distintas em prol de um objetivo comum.

O PREÇO DO ISOLAMENTO: 2014 E A QUEBRA DA TRADIÇÃO
Se nas eleições de 2002, 2006 e 2010 o PT e seus aliados cumpriram o dever de casa — garantindo bancadas expressivas no Congresso Nacional para sustentar o Executivo —, o ano de 2014 representou um ponto de inflexão e a quebra de uma tradição pragmática.
Em Rondônia, o desenho natural para a manutenção do projeto passava pela indicação do PT para a vice-governadoria na chapa de Confúcio Moura. O cálculo era promissor: além do espaço no Executivo estadual, a força da aliança garantiria a eleição de pelo menos um deputado federal alinhado ao Planalto. Contudo, a estratégia rondoniense tomou outro rumo com a candidatura própria de Padre Ton ao governo. O desfecho foi drástico para o partido local: a sigla ficou sem a vice-governadoria e sem representação na Câmara Federal.
Essa matemática local reverbera diretamente na esfera nacional. Na política de coalizão, cada cadeira conta. Se o governo federal contasse com uma margem de vinte deputados federais ou oito senadores a mais naquele período de crise, a história do país certamente teria sido outra, e o processo de impeachment de 2016 dificilmente encontraria terreno fértil para prosperar. O preço do isolamento e das decisões regionais sectárias costuma ser cobrado caro na capital federal.

O TABULEIRO DE 2026: AVANÇO OU RETROCESSO?
O futuro do equilíbrio político nacional também se decide nos estados, e Rondônia precisa escolher, em definitivo, qual papel deseja desempenhar nesse xadrez. Ter um projeto focado e realista significa a diferença exata entre o êxito e o fracasso. No cenário atual, o sucesso não se mede mais por disputas paroquiais: ele se traduz na eleição de deputados federais e senadores capazes de pautar os rumos do país.
Eleger apenas deputados estaduais, sem representação na bancada federal, não pode ser encarado como vitória; pelo contrário, representaria um retrocesso de quarenta anos. Seria o equivalente a retornar às eleições de 1986, quando as forças progressistas do estado davam seus primeiros passos e elegiam dois deputados estaduais. A história não perdoa a falta de estratégia. Para Rondônia não retroceder ao século passado, a resposta está na união programática e no pragmatismo eleitoral.
A história local deixa uma lição clara: quando Acir, Confúcio e o PT caminharam juntos, o resultado foi a vitória. Em 2026, o desafio assume contornos ainda mais especiais e urgentes. A questão central que se impõe para as forças governistas no estado é estratégica: o bloco será capaz de reorganizar a base para dar sustentação ao projeto de Lula ou permitirá que a totalidade da bancada de Rondônia seja entregue, por osmose e falta de articulação, ao campo adversário?

DANIEL PEREIRA. ex-vereador (1989-1992 - Cerejeiras/RO), ex-deputado estadual (1995/2003) pelo Partido do Trabalhadores – PT.

 

 

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